sábado, 28 de abril de 2012

“POR QUE UM VIRA DEZ E DEZ VIRA UM?” A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE NÚMERO PELA CRIANÇA



Quando, em 1975, um aluno da 2ª série me fez a pergunta acima fiquei atônita, afinal de contas eu nunca tinha parado para pensar nisso. Estava no meu primeiro emprego como professora numa escola municipal em Nilópolis corrigindo animadamente as tarefas de casa, com as crianças dando as respostas. Quando coloquei contas no quadro e eles começaram a responder, eu disse “tanto mais tanto dá ... e vai...” (referindo-me à adição com reserva), nesse momento surgiu a questão. Fiquei tentada a responder da mesma forma que minha professora de matemática do Curso Normal respondia: “é uma convenção”, mas não me sentiria bem se não soubesse responder a uma pergunta feita por um menininho sardento de oito anos.
Então, como numa revelação, pela primeira vez na vida, pensei no porquê. Até aquela data, eu sempre fizera as contas automaticamente sem atentar para as ordens e classes numéricas, elas eram tão naturais na minha vida que não me lembro de quando tomei conhecimento delas, nem de que forma. Mas aquela criança não se deixou convencer pelo que a professora instruíra, ela queria uma explicação lógica e não seguir interiorizando o que não compreendia. “Ensinei” classes e ordens, a turma aparentemente aprendeu, e, assim, prossegui com as outras turmas com que trabalhei no primeiro segmento do Ensino Fundamental, achando sempre que estava sendo compreendida, pois eram poucas as crianças que não “entendiam” que uma conta sempre começava pela ordem das unidades (exceto a divisão) e que nunca se devem colocar dois algarismos numa mesma ordem numérica. Até que me deparei com o construtivismo.
A abordagem tradicional
Primeira surpresa: uma dezena não é outro nome para dez unidades, “não é um grupo concreto de unidades que podem ser reagrupadas; é antes de tudo, uma ideia de maior grau de abstração que a ideia de unidade”, diz Kamii (2004a:82).
Como assim? - perguntariam meus alunos.
Pela abordagem tradicional seria justamente isso, dez unidades formariam uma dezena e ponto, tanto que os professores das crianças pequenas as fazem juntar objetos de dez em dez e amarrá-los ou contorná-los, passando esse “separado” a denominar-se dezena. Ao representar o número a criança sabe que, por exemplo, em 34 unidades, os três amarrados representam 30 unidades e os quatro elementos restantes representam 4 unidades. Isso mesmo, 30 unidades + 4 unidades, porque, dependendo da série em que esteja, ela irá contar um a um os itens dentro de cada amarrado e, muitas vezes, se for solicitada a somar as dezenas e unidades ela dirá que tem ao todo 7, deixando a professora perplexa.
 Kamii (2004a:204/205) descreve o resultado de um teste, no qual ela mostrava às crianças  individualmente um cartão com o numeral 16 escrito e pedia que estas separassem 16 feijões de um monte. Quando ela circulava o 6 do 16 com o dedo, perguntava o que aquela parte significava e solicitava às crianças que mostrassem com feijões o que aquela parte[1] queria dizer, elas não tinham nenhuma dificuldade em mostrar 6 feijões, mas quando a examinadora circulava o 1 do 16 e formulava as mesmas questões, quase todas as crianças que haviam estudado matemática de forma tradicional mostraram um único feijão. Após a contestação da examinadora, algumas crianças reconheciam que havia algo estranho, mas a maioria não percebia nada de errado no que tinha feito. Essa dificuldade acompanha a criança até a terceira ou quarta série, embora o valor posicional seja ensinado na escola desde a primeira série, porque “quando a resposta certa é incompreensível para a criança, sua imposição só lhe ensinará a acompanhar silenciosamente o adulto em sua posição de poder”[2], foi isso o que aconteceu comigo e era isso o que eu impunha aos meus educandos.
Piaget considera a síntese de dois tipos de relações (ordem e inclusão hierárquica) como constitutiva do número. Na relação de ordem a criança consegue ordenar mentalmente os objetos, quantificando-os. Na relação hierárquica, ela não só ordena os objetos como os inclui numa classe maior sabendo que o “um” está contido no “dois”, o “dois” no “três” e assim sucessivamente. Para que a criança seja capaz de pensar no número 34 como compreendendo 3 dezenas e 4 unidades, ela precisa construir o sistema das dezenas sobre o sistema de unidades, por abstração reflexiva[3]. “No sistema de dezenas a criança deve igualmente ordenar mentalmente as unidades, incluindo o ‘um’ no ‘dois’, o ‘dois’ no ‘três’ etc.; embora os ‘uns’ nesse novo sistema sejam na verdade ‘dez’”[4]. (KAMII, 2004a:45/46)
Diz ainda a autora, que os adultos não têm como avaliar a dificuldade que sentem as crianças pequenas para construir o sistema de dezenas, visto que a construção do sistema de unidades já é uma tarefa bastante complexa. Elas precisam de tempo suficiente para construir o sistema de unidades a fim de que ele possa se tornar uma base sólida para o sistema de dezenas e é por isso que este não deve ser trabalhado nas duas séries iniciais (KAMII, 2004a:52).
O enigmático processo de construção do número
Segundo Piaget (apud KAMII, 2004b), o número é uma estrutura mental difícil de ser construída. Em seus estudos, percebeu que para estar apta a alcançar esse entendimento, a criança necessita ter desenvolvido os níveis de conhecimento físico e lógico-matemático.
No conhecimento físico (abstração empírica) a criança analisa apenas um aspecto do objeto, por exemplo, de posse de um lápis vermelho, a criança isola sua cor, seu peso ou sua forma (conhecimento físico). Já no lógico-matemático (abstração reflexiva) ela precisa ter construída uma estrutura de coordenação de relações para que possa distinguir várias características no objeto: diante de dois lápis a criança percebe a diferença de cor, de forma ou de peso. Para se perceber a diferença ou a semelhança os objetos têm que estar numa relação, um só objeto não é suficiente para se estabelecer essa relação, mais de um objeto precisam ser comparados e o sujeito por sua própria decisão realizará a relação, que pode ser estabelecer se são parecidos ou não, de acordo com sua reflexão subjetiva. A fonte do conhecimento físico é parcialmente[5] externa aos indivíduos. A fonte do conhecimento lógico-matemático é interna. Kamii (2004b) considera o termo abstração construtiva em lugar de abstração reflexiva mais fácil de compreender que esta abstração não representa “apenas o enfoque sobre algo já existente nos objetos”. (p.17)
Esta autora (2004b) chama a atenção para o fato de muitos professores apresentarem conjuntos de objetos às crianças e pedirem que elas determinem os conjuntos que tenham a mesma propriedade de número. Segundo ela, o equívoco se encontra na suposição de que “a criança aprende conceitos sobre número ao abstrair a ‘propriedade de número’ a partir de vários conjuntos, do mesmo modo que elas abstraem a cor e outras propriedades físicas dos objetos” (KAMII, 2004b:16). As crianças não aprendem conceitos numéricos com desenhos nem simplesmente manipulando objetos, “elas constroem esses conceitos pela abstração reflexiva à medida em que atuam (mentalmente) sobre os objetos.”[6]
O ideal, conforme a autora, seria apresentar um conjunto à criança (por exemplo, os coleguinhas sentados a mesma mesa) e pedir-lhe que faça um outro conjunto comparando-o ao que já está feito (trazer lápis suficientes para todos), porque quando se pede a uma criança que julgue dois conjuntos já feitos “a razão que a criança tem para compará-los é apenas a de que o adulto quer uma resposta” [7] e, neste caso, “comparar conjuntos é uma atividade passiva na qual a criança está limitada a três respostas possíveis: os dois conjuntos são iguais, um tem mais, ou o outro tem mais”[8]. Quando a criança tem que fazer um conjunto ela começa com zero, e vai pegando sempre mais um, até decidir quando parar, essa abordagem tem maior valor educacional, pois é a criança que decide quando deve interromper a ação de adicionar mais um[9], por isso, para “ensinar” número o professor, em vez de enfocar apenas a quantificação, deve incentivar a criança a pôr tudo em relações durante todo tempo (tipos de coisas, idéias e eventos)[10].

KAMII, Constance. Aritmética: Novas perspectivas – Implicações da teoria de Piaget. Trad. Marcelo Cestari T. Lellis, Marta Rabioglio e Jorge José de Oliveira. 9ª Ed. Campinas, SP: Papirus, 2004a.
__________ A criança e o número: implicações da teoria de Piaget para a atuação com escolares de 4 a 6 anos. Trad. Regina A. de Assis. 32ª Ed. Campinas, SP: Papirus, 2004b.





[1] Ela acha importante o uso dessa palavra, para não influenciar o pensamento infantil.
[2] Id., 2004b:72
[3] “... a abstração reflexiva procede por reconstruções que superam as construções anteriores, integrando-as”. BATTRO, A.M.
[4] Id., 2004a:45/46
[5] Grifo da autora, que justifica o termo utilizado dizendo que Piaget afirma que “no âmbito da realidade psicológica da criança, não é possível que um dos tipos de abstração exista sem a presença do outro.”p. 16/17.
[6] Ibid., p. 58
[7] Ibid., p. 57
[8] Ibid., p. 57
[9] Ibid., p. 58
[10] Ibid., p. 70

*Texto inicialmente publicado como capítulo de minha dissertação (Mestrado em Educação UFRJ).

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